Era o dia 22 de março de 2010 quando comecei a trabalhar no jornal Agora SP. A redação tem um cheiro doce, que mescla café com produto de limpeza. Meu primeiro amigo foi um cara chamado Carlos Messias, que cobria a editoria de música. Meses mais tarde ele se tornaria um querido, mas isso eu conto mais tarde.
Assim que cheguei aprendi que existia um programa de computador chamado SDE, que não se parecia com nada que eu já tivesse visto na vida. Ele servia para escrevermos as matérias e ela já deixar no esquema para a diagramação. Era complicado, cheio de detalhes e de comandos específicos. Errar um comando no SDE significa que a matéria que você pensava ter 20 linhas, de repente ganha 70, ou o contrário. O que implica numa perda de tempo enorme.
Trabalhar num jornal diário é uma experiência enriquecedora para qualquer ser humano que goste de trabalhar com gente e de ver a vida pulsando o tempo todo. Improvisar e rebolar para conseguir que suas matérias deem certo é uma guerra diária. Lá a gente não matava um leão por dia, era logo a alcateia inteira.
São duas da tarde e quase ninguém chegou na redação, apenas um ou dois repórteres que precisam fechar de três a quatro páginas naquele dia. Os repórteres chegam aos poucos, com cara de sono, passos rápidos e uma ideia na cabeça para conseguir o entrevistado do dia. Os editores entram mais tarde, e como a responsabilidades deles é maior, o humor é mais pesado. Ou estão bem contentes, ou bem mal humorados.
A minha rotina diária consistia em implorar para os assessores me conseguirem determinado entrevistado, conseguir fotos, bolar a diagramação da página com os editores, e esperar que ela chegue. Essa parte é complicada porque muitas vezes a página demorava a vir e eu logo aprendi a contar as linhas de diagramações diferentes e já deixar a matéria no esquema para quando a página chegasse.
O melhor de ter trabalhado na redação do Agora foram as pessoas. Se a equipe de uma redação não for composta por gente boa, o lugar fica um inferno para se viver, já que se passam mais horas dentro do jornal do que em qualquer outro lugar. O Carlos Messias, ou Carlitos, para mim, (falei dele no começo do texto), é um cara fechado, que a princípio não abre o coração para você e nem cria intimidades logo de cara. Isso até ele achar que você merece o carinho dele, aí ele descobre o que te deixa irritada e faz brincadeiras o tempo todo até você dar risada. E dava certo. Alan Faria, eu percebi logo que entrei, era o melhor repórter. Um faz tudo que fazia tudo muito bem feito. E dono de uma alegria contagiante, um senso de parceria incrível, eu e ele logo combinávamos matérias e dividíamos frustrações, risadas e vibrávamos com nossas capas que davam certo. A Tariana foi meu ombro amigo quando eu fazia plantão em cidades, quando eu fui chorar no banheiro e quando precisei de ajuda. Se você precisar confiar em alguém ali, confie nela. O Alberto eu conhecia do Mackenzie, e ele realmente nasceu para a coisa. Tem aquele faro de repórter com o jeito perspicaz do colunista, e a alma sensível. A Amanda foi e é uma amiga daquelas raras que a gente topa vez em quando na vida, é preciso conservá-la com unhas e dentes. A injustiça que o Diego sofreu ao ser demitido por um acento pela alta cúpula da Folha me mostrou que o mundo não é correto, ele é o que é e, ou você engole isso, ou vai sofrer muito. Mas ele superou, ainda bem, porque é um cara valioso demais para esta vida. O Léo (que aguentava meu mal humor), a Isa (que é um doce), Janaína, Vivi, Paulas, Poli, Mayrinha, Mariana Garcia e Thati logo me cativaram.
A Débora, minha chefe, foi e é a corinthiana mais apaixonada que conheci. Ela é coração. Mas não só coração, de vez em quando ela tinha que ser durona com os repórteres, senão a gente fazia o que queria. Ela sabe reconhecer o sangue, suor e lágrimas da equipe. Sabe ser doce e gentil, e sabe ser exigente. O abraço que ela me deu em meu aniversário me fez ver que ela nunca foi para mim só minha chefe, era muito mais. O bom de ter saído do Agora é que percebo que posso ser mais ‘Lara’ com ela, sem ter que manter o respeito chefe-funcionário. Posso chamá-la de Dezinha. Pra ser sincera, ela me lembra a Camila, minha irmã mais velha. O Marcão, um roqueiro em todos os gêneros, divida comigo músicas do Elvis, hamburgueres e ensinamentos: “Lara, essa vírgula não é aqui”. Se ele achar alguma vírgula errada nesse texto, vai perdoar só porque gosta de mim, rs.
A parte ruim da redação de um jornal diário é quando as matérias dão errado, aí a gente não tem hora para ir embora. E isso pegava para mim, eu tenho muita vida dentro de mim, queria ir embora logo para tomar uma cerveja, ver os amigos do peito, ver a vida lá fora. Mais difícil ainda eram os plantões de final de semana, em que eu cobria a editoria de Polícia e saia pelas delegacias afora para conseguir ler os B.O.s da vida. Eu não queria ir para delegacias, me sentia mal ali, sou muito bundona para essas coisas. Admiro os fotógrafos corajosos do Agora até hoje. Nego ali sobe o morro numa boa. E os motoristas? Destaque era o Dama da Noite, que só me fazia rir o tempo todo. Num jogo de Copa do Mundo ele deu um cavalo de pau em pleno Anhangabaú com o Fábio Braga do lado, espero que nenhum chefe dele leia esse texto, rs. Os diagramadores então, amigos do peito. Bira e Thiago moram dentro de mim também.
A resposta é que vale a pena gastar parte de sua vida ali. Vale viver a emoção todos os dias de fechar matérias. Vale ter o reconhecimento dos atores que indicam sua matéria e vale aprender a não se importar com os que são grossos. Vale aprender mais sobre ‘Passione’ do que qualquer outra coisa.
Valeu a pena e eu agradeço. E sinto a maior falta de todos ali. Só não sinto dos plantões, mas nada é perfeito, né? =)
Agora SP
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.
Delicia de leitura menina. Orgulho dessa pupila eterna, mesmo que eu não seja jornalista! Boa sorte na vida!
bjos Jo
amo… e amor é pouco!
Adorei, Lara! Você faz falta aqui! Beijos!
Larinha, as vírgulas tão certas!
Beijão! saudades de você