“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever…”
Frase de Clarice Lispector.

Quando era criança adorava desenhar. Tinha verdadeiro fascínio pela idéia de preencher uma folha em branco com qualquer coisa que me viesse a cabeça. Eu poderia colorir, ou simplesmente rabiscar. Não era sempre que coloria, parecia que os lápis nunca tinham a cor certa para a aparência que eu desejava. Os rabiscos em preto e branco eram os meus favoritos, porque eles tinham a cor que eu quisesse na minha mente, e a cor que as outras pessoas quisessem para elas.
Eu era tão ligada em desenho, que fiz durante a 4ª série um curso de artes na escola, toda segunda-feira. Me sentia importantíssima por fazer o que eu gostava: desenhar. Aprendi a pintar camiseta, fazer máscaras, esculturas de argila e papel-machê. Desenhar pra mim significava uma libertação. Nunca fui muito crítica quanto aos meus desenhos, eu gostava deles do jeito que eram, e quando não gostava, simplesmente apagava – apesar da professora dizer que não deveríamos apagar nada, porque nunca repetiremos o mesmo traço – eu apagava escondido e pronto.
De repente percebi que meus desenhos poderiam ter histórias, então fiquei obcecada pela idéia de criar um personagem para cada esboço que fizesse. Foi assim que surgiram alguns gibis e livros, aos quais eu me dedicava com afinco. Afinal cada personagem tinha que ser escrito como eu tinha desenhado! Era uma missão e tanto.
Quando chegou o ginásio eu tinha que escolher qual área da aula de cultura eu queria seguir: artes ou teatro. Não preciso nem dizer mas digo que escolhi o teatro, e foi com a consciência tranquila, mesmo que de vez em quando eu olhasse dentro da sala e sentisse saudade de pegar os pincéis e pintar telas brancas.
Esse tempo passou rápido, e hoje já não desenho mais. Não por falta de vontade, mas sim porque me dediquei somente a escrita. Acho que troquei uma coisa pela outra. Mas escrever é tão mais subjetivo, que até hoje me pergunto senão deveria ter seguido para a Escola Panamericana de Arte. Me questiono se as pessoas que leem meus textos sabem o que eu realmente quis dizer. Será que elas conseguem ler o que me vai na alma? Não sei.
Sinto falta de desenhar. Mas as letras tomam forma mais rápido na minha mente do que as imagens, eu junto tudo e um texto está pronto. Pronto para ser corrigido e avaliado pelos outros. Escrevo pra mim e porque gosto, mas um texto lido não pertence mais a quem escreveu, e sim a quem leu. A pessoa interpreta o que quiser. E é aí que a situação muda de figura, sabem. Não sou mais eu que estou a digitar essas palavras no teclado, são vocês que quando leem pensam o que bem quiser da minha infância cartunista e minha vida adulta de escritora.

Eu só sei insistir. Faço sonhos e saudades caberem nos meus poucos minutos disponíveis para escrever sobre o tema que quiser. É como uma aquarela…a gente pinta a própria vida.

Lara