Confesso que a única música do Cazuza que conhecia - como muitos jovens de hoje - era “Exagerado”. Resolvi assistir ao filme porque pensei que ele devia ter outras canções bacanas e por curiosidade de conhecer o cara que morreu de Aids quando eu tinha cinco anos. Apaixonei-me. Descobri alguém com um raro amor pela vida e amigos, um louco sensível, drogado e bissexual em busca de todos os prazeres. Um jovem mimado e muitas vezes inconseqüente, mas com a valiosa alma infantil dos descobridores e uma sensibilidade extrema pra dizer o que pensava e sentia na lata. Foi ainda um Édipo assumido,sempre manteve forte ligação com a mãe, a ex-cantora Lucinha Araújo.

Cazuza fez sempre o que quis e queria cantar bossa nova com rock and roll. Por isso deixou o Barão Vermelho, banda que fazia enorme sucesso quando ele resolveu sair, mas manteve até o fim uma bonita parceria com o guitarrista e amigo Frejat.

Depois do Barão, partiu para várias lutas: por sua poesia, sua música e vontade de estar “no primeiro time” dos cantores brasileiros. E ainda teve que encarar de frente, até o fim da vida, “a cara da morte”, a AIDS.

Caju (como era chamado pelos íntimos) teve então que parar um pouco suas loucuras e seu prazer de viver foi transferido para a música,já que “meu prazer, agora é risco de vida, meu sex and drugs não tem nenhum rock and roll”. Passou a ser um Caju com medo de voar, amar, ser feliz, tudo o que sempre foi. Mas não deixou de emocionar.

O filme que conta sua vida é eletrizante e triste ao mesmo tempo. Corre um frio na espinha, uma vontade de gritar, de sair da nossa vida pacata, do nosso insensato vazio consumidor para perceber que o tempo não pára mesmo. Cazuza mostrou que basta querer mudar o mundo, mas não pôde viver o bastante para perceber que conseguiu. Cantou amores vividos e sofridos, detonou um Brasil que tinha ainda a alma suja pela Ditadura e percebeu que podia mais levar a vida do jeito que queria, viu a morte de frente e ela estava viva. Era talvez um poeta sensível demais para esse mundo.


“Os ignorantes são mais felizes, eles não sabem quando vão morrer, eu não. Sei que tenho um encontro marcado. As pessoas esquecem o que vão fazer, eu não posso me dar esse luxo, faço tudo caber nos meus próximos e poucos dias.Todas as idéias que eu teria, as pessoas que eu conheceria, o que eu ainda fosse cantar. Estou grávido, mas não posso esperar. O tempo não pára e a gente ainda passa correndo, eu fiquei aqui, tentando agarrar o que eu puder. Ando fraco.Tem um mundo ao redor que a gente nem percebe. Estou ficando magro e pequeno para as minhas roupas, sinto que estou reunindo as minhas coisinhas, me concentrando. Se eu pudesse, guardava tudo em uma garrafa e bebia de uma vez. Penso no que vai ficar de mim. Eu, só sei insistir”
(Cazuza).

O poeta ainda está vivo.