Era um sonho confuso, em que eu voltava a ser criança. Mas não uma criança inocente. Eu tinha a mesma experiência de vida que tenho agora, mas no corpo de criança era mais fácil manipular as pessoas e fazer com que elas agissem como eu gostaria e me cercassem de um carinho que nem eu me oferecia.
Nesse sonho, as pessoas ao meu redor não eram aquelas da infância. Eram as mesmas que fazem parte do meu dia hoje. Eu chorava, contrariada. Deixei de acreditar em tudo que tinha conquistado. Mais do que isso, esqueci tudo que tinha sofrido. Esqueci a dor que me fez aprender tantas coisas. Fingi que não tinha caído. Fingi que o amor nunca tinha me machucado antes, agi como se fosse a primeira vez, que besteira.
Quis que meus pais passassem a mão na minha cabeça e que minhas irmãs me defendessem do mundo, como antes. Esperei que meus amigos segurassem uma barra que era só minha. Senti falta das amigas que via todas as manhãs, mas não as buscava nesse sonho, as deixei seguir sem mim.
O céu era escuro e eu colocava o dedo na boca, para não ter que falar. Um sonho longo, que durou mais do que deveria. Mas não foi pesadelo. Eu estava ali por opção. Me transportei para aquela realidade. Achava mais fácil ser criança. Demonstrei um profundo desprezo pela imagem da menina que eu fui. Essa já deixou o Horizontes há seis anos. Seis anos complicados, mas que me mostraram que depender dos outros é arranjar muletas para não assumir a própria vida.
Acordei a tempo. Antes de jogar tudo pro alto. Acordei estranha, porque tinha perdido a noção de mim mesma. Mas acordei a tempo de ser uma pessoa melhor. Já passou da hora. Essa menina ficou pra trás… e quem chega agora é a mulher. Lara.