A gente sempre se pergunta o que é felicidade. Hoje ouvi no rádio que uma coisa é felicidade e outra é a alegria de um momento. Daqui dois dias vou para os Jogos de Comunicação e Artes, representando, torcendo e gritando pelo Mackenzie.

O Juca é indiscutivelmente superior à essas pequenices que julgamos chamar necessidade, nossa única necessidade é ser feliz, aprendi isso lá. Digo isso, porque já passei vários apertos nos alojamentos desses jogos, é de enloquecer não ter água pra escovar os dentes de manhã ou tomar banho de noite, passar fome e a única coisa que se tem para comer durante quatro dias é cachorro-quente com purê de batata. Chega a ser quase insuportável ter dor de ouvido num lugar como esses e ir para o pronto socorro às quatro da manhã de um feriado, e ser atendida por um boliviano capaz de assegurar que eu não tinha nada (ao chegar em Sampa, a otite era crônica). Ainda assim, eu amo esse lugar. Sou simplesmente muito feliz ali. O som da bateria é eletrizante. Torcer pela vitória e decorar gritos de guerra e de torcida é sensacional.

Vale a pena todo o esforço e o cansaço, só se é jovem uma vez. Os 20 e poucos anos que o Roberto gravou, realmente não voltam.

E vamos à luta Mackenzie. Sou tubarão de coração, vim aqui pra vencer.

 

 

Tinha dito pra mim mesma que não ia escrever nada sobre o caso da menina Isabella, porque acho que tanta coisa já foi dita e pensada sobre o assunto que, o que teria eu do alto dos meus somente 22 anos e estudante de jornalismo de interessante pra falar, com tanto escritor bom discutindo o caso? Mas a resposta é sempre a mesma: a vontade de escrever sobre o que me motiva.
Essa semana o pai e a madrasta foram presos. Acho peculiar a palavra madrasta, sempre achei. É porque a gente aprende nos contos de fada que elas são sempre ruins, malvadas, com coração de gelo, nesse caso, era uma má-drasta mesmo. Nada me tira da cabeça que os meninos, filhos dela, devem ter visto alguma coisa, um deles acabou de fazer 4 anos. Eu me lembro de fatos dessa idade da minha vida. Como uma criança vai crescer com o fato de que a irmã foi esganada e atirada pela janela pelos (deles) pais? É demais pra mim.
Cresci numa geração já conturbada, acompanhei Suzane Richtoffen matar os pais e Liana Friedenbach ser brutalmente violentada e assassinada por Champinha (acho que nunca vou esquecer o nome dele). O caso Isabella, é infelizmente, mais um entre jovens que incendiam índios, seqüestram um paralítico e cortam sua orelha, e dão tiros no cinema de um shopping. A diferença nesse caso é só uma: trata-se de uma criança. De 5 anos.
A pergunta não é qual mal pode fazer uma menina de cinco anos, porque a resposta é óbvia: nenhum. Pra mim a pergunta é, como pode um pai ser a tal ponto desligado da filha a ponto de atirá-la pela janela do sexto andar? Não se sente nenhum amor capaz de atirar a mulher pro lado ao vê-la esganando sua filha? Que sentimento terá feito ele ficar imóvel frente a tamanha agressão?
Não sei. Sou apaixonada por crianças, elas me fascinam. Me identifico muito com elas, acho que nos parecemos um pouco. Achei triste ter que crescer e deixar o mundo infantil pra trás. Isabella teria crescido e feito suas escolhas, teria deixado as barbies algum dia, assim como eu deixei. Ela teria seus filhos.
Pra você, Isabella, toda minha energia positiva para que fique em paz. Deus não nos desampara, tenho certeza que Ele está com você, filha de Deus você é. Embora não fosse de Alexandre.
Que Alexandre e Anna Carolina tenham tempo suficiente para pensar no que fizeram, o tempo pode nos aprisionar em nós mesmos e nos corroer por dentro. Não lhes desejo o mal, mas desejo que eles demorem o tempo que for preciso para, algum dia, em algum outro lugar, que não esse em que vivemos, serem perdoados por ela. Por Isabella. Porque serão.

 

Sempre gostei de supermercados pequenos, toda vez que olho pros hipermercados, fico fascinado, pensando na grandeza de um shopping onde se vende comida.Mas eu vou e me sinto deslocado, sem falar que me perco também, demoro horrores pra encontrar minha bolacha favorita, distraio vendo os filmes nas televisões. Sou um cara atrapalhado.

 

Nos pequenos supermercados não, eu conheço a moça do caixa simpática, o dono me estende a mão e pergunta como vai o cachorro que nunca tive. Era um labrador  da minha ex, que eu de vez em quando levava pra passear. Mas a boa educação responde:

-Vai bem, vai bem.

 

O fato é que eu tava no supermercado que sempre costumo ir, fui comprar macarrão, nuggets, uma saladinha e coca-cola. Tava decidindo entre o detergente de maçã ou neutro quando escuto uma voz tão conhecida e tão saudosa:

 

-Leva o de maçã, Marcelo.

Viro, e ela estava ali. Com o cabelo diferente, mas a mesma carinha de menina. Depois de três anos, ainda a mesma expressão sapeca. Branca me dá um daqueles seus abraços apertados, solta aquela risada de bons tempos e começamos a conversar.


Ela foi minha melhor amiga na faculdade. Na época da faculdade se descobre as pessoas mais divertidas da sua vida, também as mais parecidas com você em temperamento, afinal, não foi a toa que você e todo aquele povo escolheram determinado curso.

Mas a Branca era mais, a gente se comunicava com o olhar, ela acobertava todas as minhas bebedeiras e todos os namorados dela tinham ciúme de mim. Mas ela não se importava. E nem eu. É até estranho nunca ter rolado nada entre a gente. Mas quando a gente gosta muito de uma pessoa, é bom ser apenas amigo, porque as amizades são sempre eternas.
Relembramos os velhos tempos, tempos de porres, de trabalhos, de professores, de pessoas que não gostávamos, e de pessoas que sentimos saudades.


Depois ela foi embora e ficou esse vazio em mim. Porque acabamos nos afastando. A vida tem dessas, as vezes uma pessoa que já nos foi tão importante torna-se apenas mais um rosto conhecido no corredor. No fundo sei que tô exagerando, a Branca e eu seremos sempre amigos e cada reencontro será sempre uma alegria.

Mas gostaria de ainda vê-la todos os dias. Gostaria de poder ter aquelas conversas longas com ela, quando só ela me entendia. Gostaria de ter lhe dito o quanto ela foi bacana comigo.

Na fila do caixa, vejo ela me esperando lá fora:

 

-Tava pensando em tomar uma cerveja,que tal?

 

Fomos. E o vazio foi embora. Como somos inseguros, sempre achamos que os outros foram mais pra gente do que fomos pra eles. Ela me disse da saudade que sentia de mim. E eu, que sempre fui um cara tímido, me emocionei muito. Nem todo o mundo tem um amigo de verdade. Eu posso dizer que tive. Trocamos telefones e ficamos de nos falar. Não importa que a vida nos leve para caminhos diferentes, o amor e a amizade verdadeira sempre permanecem. Devemos querer sempre a verdade da vida. Sempre as boas amizades, e sempre algo pra se ter saudade. Amigos são a melhor parte da vida. Afinal, é com eles que você divide seus melhores momentos. E isso nunca pode significar pouco. É muito.

Confesso que a única música do Cazuza que conhecia - como muitos jovens de hoje - era “Exagerado”. Resolvi assistir ao filme porque pensei que ele devia ter outras canções bacanas e por curiosidade de conhecer o cara que morreu de Aids quando eu tinha cinco anos. Apaixonei-me. Descobri alguém com um raro amor pela vida e amigos, um louco sensível, drogado e bissexual em busca de todos os prazeres. Um jovem mimado e muitas vezes inconseqüente, mas com a valiosa alma infantil dos descobridores e uma sensibilidade extrema pra dizer o que pensava e sentia na lata. Foi ainda um Édipo assumido,sempre manteve forte ligação com a mãe, a ex-cantora Lucinha Araújo.

Cazuza fez sempre o que quis e queria cantar bossa nova com rock and roll. Por isso deixou o Barão Vermelho, banda que fazia enorme sucesso quando ele resolveu sair, mas manteve até o fim uma bonita parceria com o guitarrista e amigo Frejat.

Depois do Barão, partiu para várias lutas: por sua poesia, sua música e vontade de estar “no primeiro time” dos cantores brasileiros. E ainda teve que encarar de frente, até o fim da vida, “a cara da morte”, a AIDS.

Caju (como era chamado pelos íntimos) teve então que parar um pouco suas loucuras e seu prazer de viver foi transferido para a música,já que “meu prazer, agora é risco de vida, meu sex and drugs não tem nenhum rock and roll”. Passou a ser um Caju com medo de voar, amar, ser feliz, tudo o que sempre foi. Mas não deixou de emocionar.

O filme que conta sua vida é eletrizante e triste ao mesmo tempo. Corre um frio na espinha, uma vontade de gritar, de sair da nossa vida pacata, do nosso insensato vazio consumidor para perceber que o tempo não pára mesmo. Cazuza mostrou que basta querer mudar o mundo, mas não pôde viver o bastante para perceber que conseguiu. Cantou amores vividos e sofridos, detonou um Brasil que tinha ainda a alma suja pela Ditadura e percebeu que podia mais levar a vida do jeito que queria, viu a morte de frente e ela estava viva. Era talvez um poeta sensível demais para esse mundo.


“Os ignorantes são mais felizes, eles não sabem quando vão morrer, eu não. Sei que tenho um encontro marcado. As pessoas esquecem o que vão fazer, eu não posso me dar esse luxo, faço tudo caber nos meus próximos e poucos dias.Todas as idéias que eu teria, as pessoas que eu conheceria, o que eu ainda fosse cantar. Estou grávido, mas não posso esperar. O tempo não pára e a gente ainda passa correndo, eu fiquei aqui, tentando agarrar o que eu puder. Ando fraco.Tem um mundo ao redor que a gente nem percebe. Estou ficando magro e pequeno para as minhas roupas, sinto que estou reunindo as minhas coisinhas, me concentrando. Se eu pudesse, guardava tudo em uma garrafa e bebia de uma vez. Penso no que vai ficar de mim. Eu, só sei insistir”
(Cazuza).

O poeta ainda está vivo.