Quando nos conhecemos ela já tinha transado e eu nunca tinha beijado. Nossos colégios se uniram num só e nos entendemos jogando queimada, fomos as únicas que sobraram e éramos adversárias no jogo (pasmem, eu ter sobrado numa queimada é realmente fato histórico). Não queríamos nos eliminar porque já tínhamos simpatizado uma com a outra.
Ficamos amigas no dia do meu aniversário, ela tinha comido uma coxinha estragada e eu fiquei com ela no banheiro enquanto ela vomitava. Éramos completamente diferentes no jeito de ser, mas tínhamos os mesmos valores de amizade. Enquanto ela colocava piercing no umbigo, no nariz e na língua, eu deixava de usar calças de moletom.
Admirava a liberdade dela. Não só a liberdade de poder sair a noite e de poder fazer o que quisesse, mas essa liberdade de poder ser ela mesma. De fazer tudo que queria e encarar de frente cada consequência. Ela me ensinou a me vestir melhor, me ensinou sobre sexo, me ensinou a beber tequila num gole só, me ensinou sobre garotos. Ela me disse que é fundamental gostar de si mesma.
Muitos não entendiam nossa amizade, ela tão precoce e eu ainda tão criança. Mas isso nunca nos atrapalhou. Eu conheci todos os seus namorados. O Libra, que me dava carona, o skatista Tharso, que calçava 37 como eu, o caipira Giu, o Rê, que me consolou tantas vezes, e agora o Dani. Ela era a menina mais bonita e mais desejada do colégio, eu era a mais querida, a irmãzinha, a intocável.
Ela me ensinou como se conquistar um garoto. Me disse que eu não podia nunca telefonar. Me ensinou que o amor é um jogo. Que quando os meninos realmente gostam de você, eles te procuram. Me fez cuidar do cabelo, a usar brincos todo dia, e cortou a gola da minha camiseta. Comprei um sutiã preto para deixar a alça aparecendo como ela fazia. Comprei um tênis branco para combinar melhor com o uniforme.
Pulamos de mãos dadas na represa (do cais proibido) na viagem de oitava série. Choramos por meninos juntas. Faziamos e quebravamos regime juntas. Eu comprava lanche na cantina para ela. Tiravamos 0 e 1,5 nas provas de matemática. Tinhamos sempre os melhores papeis nas peças de teatro da escola. Voltamos cantando “Evidências” na chuva felizes da vida num dia especial. Dei meu primeiro pedaço de bolo quando fiz 16 anos para ela. Dançamos axé juntas em Porto Seguro. Choramos no último dia de aula. E fui visita-la agora quando ela colocou silicone.
Quando saímos da escola, deixamos de conviver como antes. Eu sempre tive muitos ciúmes das amigas descoladas que ela tinha e adorava. Achava que para ela eu não tinha sido tão importante como ela fora para mim. Ela me transformou em mulher. Sorte que a verdade sempre vence. Sorte que a amizade e o amor são mais fortes. Sorte minha que ela nunca desistiu de mim.
Minha amiga, eu te amo. Obrigada por tudo. Esse tudo fez de mim grande parte do que sou hoje. Nossa história dá samba, dá novela e livro. E é um pedaço enorme e tão feliz do meu coração. Vamos juntas construir o resto de nossas vidas de novo? =)